
Educar para herdar: o maior patrimônio que uma família pode construir
Pais e mães dedicam décadas de trabalho para construir e formar patrimônio. Empresas são consolidadas, imóveis adquiridos, investimentos acumulados e negócios familiares crescem geração após geração. No entanto, uma pergunta ainda recebe pouca atenção. Quem está sendo preparado para administrar tudo isso?
Patrimônio sem educação transforma herança em fonte de conflito!
O planejamento sucessório é frequentemente associado a holdings, testamentos, doações em vida, acordos societários e estratégias tributárias. Esses instrumentos são importantes, mas representam parte da solução. Antes da organização jurídica, existe um desafio muito maior: o de formar herdeiros preparados para assumir responsabilidades. Patrimônio sem educação transforma herança em fonte de conflito. Por outro lado, quando valores, responsabilidades e propósitos são transmitidos ao longo da vida, a sucessão deixa de ser apenas a transferência de bens para se tornar a continuidade de um legado.
A preparação começa muito antes da abertura de um inventário, da doação de um bem, ou até de um automóvel. Ela acontece nas conversas em família, na transparência sobre a história da empresa, na educação financeira dos filhos, na participação gradual das novas gerações nas decisões e, principalmente, no exemplo deixado pelos pais. Cada família encontrará seu próprio caminho. Algumas optarão pela criação de conselhos de família, outras por protocolos familiares, holdings ou acordos de sócios. Todas essas ferramentas contribuem para uma governança sólida. Contudo, nenhuma delas substitui a formação humana daqueles que, um dia, receberão a responsabilidade de preservar o patrimônio construído pelas gerações anteriores.
Em um momento em que tanto se fala em inovação, inteligência artificial e ESG, vale lembrar que a inovação mais importante para uma empresa familiar talvez não esteja na tecnologia, mas na forma como prepara seus sucessores. E a governança, representada pela letra “G” do ESG, começa muito antes da sala de reuniões, ela nasce: dentro de casa; no diálogo entre pais e filhos; na construção da confiança e na transmissão de valores. O verdadeiro legado de uma família não está apenas no patrimônio que ela acumula, mas na capacidade da próxima geração de administrá-lo com responsabilidade, ética e visão de futuro. Afinal, herança é aquilo que se recebe. Legado é aquilo que se aprende a preservar.
Fábio Fernandes Lunardi é colunista da Revista Top View
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Casa de férias: patrimônio, memórias e sucessão familiar
A casa na praia, o apartamento de temporada ou o refúgio na serra costumam representar muito mais do que um patrimônio imobiliário. São lugares onde famílias celebram conquistas, reúnem gerações e constroem lembranças que atravessam décadas.
Justamente por carregarem forte valor emocional, esses imóveis estão entre os bens que mais geram conflitos
Paradoxalmente, justamente por carregarem forte valor emocional, esses imóveis estão entre os bens que mais geram conflitos familiares quando não existe planejamento sucessório. É comum que os proprietários concentrem seus esforços na aquisição, manutenção e valorização do imóvel, mas deixem para discutir sua sucessão apenas quando um evento inesperado acontece. Nesse momento, questões que pareciam simples passam a gerar divergências: quem ficará responsável pela administração do imóvel? Como serão divididas as despesas? Todos os herdeiros desejam manter o bem? E se alguns quiserem vender enquanto outros pretendem preservá-lo?
A ausência de regras claras frequentemente transforma um patrimônio destinado ao lazer da família em fonte de desgaste emocional e conflitos prolongados. O desafio se torna ainda maior quando o imóvel possui elevado valor de mercado ou quando sua utilização está ligada a tradições familiares construídas ao longo de muitos anos. Nesses casos, a discussão deixa de ser apenas patrimonial e passa a envolver aspectos afetivos, tornando as decisões mais difíceis.
Felizmente, existem instrumentos jurídicos capazes de organizar essa transição de forma segura e planejada. Estruturas como holdings familiares, associadas a acordos de sócios ou acionistas e mecanismos de governança, permitem que os patriarcas mantenham o controle, o usufruto e o poder de decisão sobre o patrimônio durante sua vida, ao mesmo tempo em que organizam sua futura transmissão aos herdeiros. Somam-se a isso ferramentas como a doação com reserva de usufruto e outras soluções sucessórias que estabelecem regras claras para administração, utilização e transferência dos bens, reduzindo significativamente os riscos de disputas futuras. Mais do que buscar economia tributária ou simplificação sucessória, o planejamento tem como principal objetivo preservar a harmonia familiar e garantir que o patrimônio cumpra sua verdadeira função: servir às pessoas que o construíram e às gerações que o sucederão. Afinal, o valor de uma casa de férias não está apenas em sua localização, arquitetura ou valorização de mercado. Seu maior patrimônio está nas histórias que abriga, nos encontros que proporciona e nas memórias que ajuda a construir.
Planejar a sucessão desses imóveis é, acima de tudo, uma forma de proteger não apenas bens, mas o legado familiar que eles representam.
Fábio Fernandes Lunardi é colunista da Revista Top View
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Médicos, dividendos e holdings: o novo cenário tributário
A reforma tributária trouxe mudanças relevantes para profissionais de alta renda — especialmente médicos que atuam por meio de pessoas jurídicas e realizam distribuições expressivas de lucros. Com a criação do Imposto de Renda da Pessoa Física Mínimo (IRPFM), instituído pela Lei nº 15.270/2025, dividendos antes integralmente isentos passaram a sofrer novos mecanismos de tributação. Entre eles, destaca-se a retenção de 10% sobre distribuições mensais superiores a R$ 50 mil para a mesma pessoa física.
Na prática, o modelo tradicional utilizado por muitas clínicas médicas perdeu eficiência. O impacto tributário passou a considerar não apenas os rendimentos de uma única empresa, mas o conjunto das receitas recebidas pela pessoa física. Nesse cenário, holdings patrimoniais e familiares ganharam protagonismo como ferramentas legítimas de organização societária, sucessória e tributária. Isso porque a distribuição de lucros entre pessoas jurídicas não sofre os mesmos gatilhos tributários aplicáveis às distribuições feitas diretamente para pessoas físicas, permitindo maior planejamento do fluxo financeiro dos sócios.
Há também respaldo regulatório para esse modelo. Conselhos Regionais de Medicina já reconheceram a possibilidade de clínicas médicas terem participação societária de holdings patrimoniais, desde que a atividade médica permaneça vinculada à sociedade operacional regularmente inscrita no CRM e com responsável técnico habilitado. Em outras palavras, a holding não exerce atividade médica — ela atua como estrutura patrimonial e societária, permitindo maior organização financeira, sucessória e tributária aos sócios da clínica.
Naturalmente, não se trata de solução automática. A Receita Federal exige substância econômica, organização contábil e coerência operacional. Estruturas artificiais ou sem efetiva finalidade empresarial podem ser desconsideradas pela fiscalização. A nova realidade tributária exige mais do que adaptação: exige planejamento. Médicos e empresários da saúde dedicam décadas à construção de patrimônio, clínicas e investimentos, mas o verdadeiro desafio está em preservar esse legado com segurança e continuidade para as próximas gerações.
Fábio Fernandes Lunardi é colunista da Revista Top View
